Como Criar Uma Criança Que Ama a Vida - Parte 7 (final)
Uma maneira em que podemos errar é por fazer coisas para nossas crianças quando elas podem e devem fazer aquilo por conta própria. Agora, nós enfaticamente não apoiamos a noção de que pais não devem fazer nada para uma criança quando a criança pode fazer aquilo por si mesma. Uma criança pode fazer seu café da manhã por conta própria todas as manhãs (a Matilda fazia!); isso não significa que seus pais não deveriam fazer o café da manhã para ela. Nossa visão é: Nós devemos nos abster de fazer coisas para nossas crianças quando elas teriam mais benefícios ao fazer aquilo por si próprias.
Se nosso filho de dois anos está tendo dificuldade para escalar um trepa-trepa, e nós o pegamos e o colocamos em um lugar mais alto do que ele foi por conta própria, nós estamos fazendo para ele o que ele deveria fazer (ou ter dificuldade para fazer) por si próprio. Da mesma forma, se nós “ajudamos” ele ao dizer, “Você é muito pequeno para esse trepa-trepa. Deixe-me mostrar um correto para você…” então nós estamos novamente fazendo para ele o que ele deveria fazer por conta própria. Uma criança se beneficia de ver por si mesma o que ela consegue ou não consegue fazer. Ela se beneficia por tentar, mesmo se ela fracassa. Entre outras razões, ela se beneficia no presente, porque ela adquire conhecimento de algo que ela (ainda) não consegue fazer; e ela se beneficiará no futuro, quando tentar novamente e ver que fez progresso, e que agora consegue fazer o que antes não conseguia. Pode haver um bom momento para mostrar à ela o outro trepa-trepa. Mas esse momento não é quando ela está tentando escalar este.
De forma similar, se nosso filho de dez anos está tendo dificuldade com um trabalho de matemática, e nós o “ajudamos” ao fazer parte do trabalho para ele, nós estamos fazendo para ele o que ele pode e deve fazer por conta própria. É claro, nós podemos ajudar nosso filho com seu trabalho, de forma legítima, de outras maneiras, que não se resumam a nós fazermos o trabalho para ele, mas esta é outra questão. Se ao invés disso nós reclamamos com seu professor que o trabalho é muito difícil, nós ainda estamos fazendo para ele o que ele pode e deve fazer por si mesmo. Se um menino de dez anos acha um trabalho escolar muito difícil, ele pode e deve conversar com seu professor sobre isso. Pode haver um momento para que a gente se envolva na questão, mas o mero advento de um trabalho difícil não é este momento.
Quando intervimos de tais maneiras, nós não estamos ajudando nossa criança; nós estamos inadvertidamente à prejudicando. Nós estamos, em efeito, nos colocando entre ela e a lei da causalidade; nós não estamos deixando ela ver que, se ela quer algo, ela tem que trabalhar por isso.
Se nós queremos ajudar nossa criança, nós precisamos nutrir seu relacionamento com a lei da causalidade, e não obstruí-lo.
Distraindo com Elogios
Outra maneira na qual podemos errar nessa esfera é ao encorajar nossa criança a mudar seu foco, da conexão causal relevante, para a distração do elogio dos pais.
Quando nós elogiamos as conquistas de nossa criança, ou a elogiamos por suas conquistas, nós a encorajamos a mudar o seu foco, da causalidade (“Meu esforço fez com que eu conseguisse”), para nossa autoridade (“Você fez bem, eu que estou dizendo”). Tais elogios, embora bem intencionados, equivalem a encorajar nossa criança a se tornar uma viciada por aprovação.
Se nós dizemos para nossa criança de dois anos, “Veja - você está no segundo degrau do trepa-trepa - bom pra você!”, nós focamos sua mente (ao menos temporariamente) na nossa avaliação de sua conquista. Se ao invés disso nós dizemos algo como “Você trabalhou duro e chegou ao segundo degrau. Isso parece divertido. O quão alto você vai tentar chegar?”, nós focamos sua mente na causa de sua conquista: seu esforço.
Da mesma forma, se nós dizemos à nossa criança de dez anos, “Você tirou dez no seu trabalho de matemática - bom pra você!” nós focamos sua mente (ao menos momentaneamente) na nossa avaliação de sua conquista. Se ao invés disso nós dizemos algo como “Um dez é bom - mas o que importa mais é a compreensão que essa nota significa - e o que importa ainda mais é a sua persistência pensativa, que conquistou ambos os resultados”, nós focamos sua mente na causa de sua conquista: seu esforço.
Se nós queremos que nossa criança prospere na vida, nós devemos permitir e encorajar ela a focar nas conexões causais, não nos elogios dos pais.
Isso não quer dizer que nós nunca devemos elogiar as conquistas de nossas crianças. Um amável “Parabéns!” para uma criança de oito anos, que ficou em segundo lugar em um campeonato de soletração, não irá suprimir sua compreensão da natureza causal do universo. Mas também não fortalecerá seu conhecimento da causalidade. Se ao invés disso, nós usarmos mais três segundos para adicionarmos, “Parece que seu treino a preparou muito bem”, nós dessa forma ligaremos sua conquista à sua causa, e portanto ajudaremos ela a fortalecer sua compreensão de tais conexões.
A questão aqui não é que todo elogio é ruim. Em vez disso, a questão é que crianças precisam ver e compreender a conexão entre esforço e sucesso - e, tudo o mais constante, quanto mais nós enfatizamos essa conexão, e quanto menos nós distraímos nossas crianças de focarem nela, mais provável será que elas aprofundem sua convicção de que pensar e tentar são coisas essenciais para viver bem e amar a vida.
O que nós podemos fazer para ensinar nossa criança sobre a natureza causal do mundo e a necessidade correspondente de agir de certas maneiras e não de outras? Essa é a Questão Mestra aplicada ao campo da disciplina. E nossa resposta aqui é: Nós podemos apresentar a lei da causalidade à nossa criança, e evitar ficar entre elas.
Conclusão: A Recompensa para Todos
Parentalidade é um assunto gigante, sobre o qual nós falaremos mais em artigos futuros. Nosso objetivo neste ensaio era simplesmente indicar nossa abordagem geral a esse processo.
Nós empregamos a Questão Mestra naturalmente por doze anos, e nós desfrutamos da jornada mais do que antecipamos - mesmo em nossas projeções pré-parentais mais otimistas. Nós sabíamos que criar uma criança seria profundamente recompensador. Mas nós não sabíamos que seria tão profundamente recompensador assim.
Nós assistimos nossa hedonista nata ir mudando para uma pessoa independente, egoísta racional, a cada descoberta, cada escolha, cada esforço. Nós testemunhamos suas vontades, suas dificuldades, seus fracassos, e seus sucessos. Nós vimos ela viver o processo de amar sua vida. O crédito, de quem ela é e o que ela fez de si mesma, é dela. Tudo o que fizemos foi fornecer ambientes, encorajamento, e vários tipos de apoio e orientação, permitindo à ela pensar, escolher, e guiar seu caminho. Mas a recompensa para suas escolhas pensadas e seus esforços, contribuem tanto para nós quanto para ela. Nós amamos que ela ame sua vida.
Como criar uma criança que ama a vida? A Questão Mestra é a chave mestra. Está em suas mãos.
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Leitura Recomendada
Nós achamos os livros abaixo particularmente valiosos. Embora não concordemos com tudo que é dito ou defendido neles, nós os consideramos muito bons pelas razões indicadas.
Joan Beck, How to Raise a Brighter Child: The Case for Early Learning (Nova York: Pocket Books, 1967). Uma coleção de informações sobre como a mente e o cérebro de uma jovem criança se desenvolvem, e o que os pais podem fazer para nutrir o avanço conceitual e o amor em aprender da criança.
Dorothy Butler, Babies Need Books (Portsmouth, NH: Heinemann, 1998). Uma agradável discussão sobre a importância dos livros para crianças, e de lermos para elas, desde o nascimento até os seis anos de idade. Inclui listas de livros recomendados, com resumos, para cada estágio do desenvolvimento.
Carol S. Dweck, Ph.D., Mindset: A nova psicologia do sucesso (Nova York: Ballantine, 2008). Voltado para uma audiência mais ampla do que apenas os pais, este livro examina dois tipos de mentalidades: uma “mentalidade de crescimento”, que é essencialmente a premissa de que inteligência e habilidade podem ser desenvolvidas através do trabalho duro, incluindo alguns fracassos; e uma “mentalidade fixa”, que é a premissa de que inteligência e habilidade são inatas e estáticas; portanto, esforço é inútil, e você está preso com o que você tem. A pesquisa e análise da Dra. Dweck são profundas para os pais, especialmente no que diz respeito às maneiras em que podemos nutrir nas crianças o amor pelo esforço e por aprender, e uma tolerância para a frustração e o fracasso.
Adele Faber e Elaine Mazlish, Como Falar Para Seu Filho Ouvir e Como Ouvir Para Seu Filho Falar (Nova York: Avon Books, 1980). Uma fartura de técnicas para se comunicar respeitosamente e efetivamente com crianças, compartilhando sentimentos e preocupações de maneiras que elas compreendam, e promovendo a benevolência e a cooperação na sua família de forma geral.
Jane Nelsen, Ed. D., Disciplina Positiva (Nova York: Ballantine, 2006). Uma variedade de informações sobre como os pais podem estabelecer e manter relacionamentos respeitosos com seus filhos, enquanto os ajudam a desenvolver autodisciplina, responsabilidade pessoal, e habilidades para resolver problemas.
Lenore Skenazy, Free-Range Kids: How to Raise Safe, Self-Reliant Children (Without Going Nuts with Worry) (São Francisco: Jossey-Bass, 2009). Um antídoto direto e agradável para a cultura atual de medo e paranóia sobre crianças e segurança. Skenazy fornece informações sérias para ajudar os pais a avaliar os riscos racionalmente, encoraja os pais a ensinar as crianças como avaliar riscos por conta própria, e impele os pais a deixar suas crianças fazerem o que elas são, de fato, capazes de fazer em seu estágio de desenvolvimento.
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