Como Criar Uma Criança Que Ama a Vida - Parte 5
Um corolário da política de razões para tudo é uma política de fingir para nada.
Nós não mentimos para nossa criança sobre nada - incluindo Papai Noel, fada dos Dentes, e coisas similares. Nosso objetivo, transmitido pela Questão Mestra, é permitir que ela entenda a realidade, e nós não podemos permitir que ela entenda a realidade se estamos sabotando sua conexão cognitiva com esse domínio. Mentir para uma criança faz exatamente isso: desconecta sua mente dos fatos.
Nós ouvimos pais argumentarem que mentir sobre o Papai Noel e companhia não é um problema, porque crianças se divertem mais quando acham que esses personagens são reais, e porque as crianças eventualmente descobrem que eles não são reais, então nenhum mal é feito. Mas esse não é um raciocínio lógico.
Parte do erro aqui é a falha em entender a natureza da fantasia, e seu papel no divertimento. O propósito da fantasia é permitir que nós entremos conscientemente em um mundo de faz de conta, e que desfrutemos deste mundo ao mesmo tempo em que sabemos que o mundo real existe e que é estável, causal, não contraditório, compreensível. Nós não lemos histórias de ficção ou assistimos filmes de ficção para sermos enganados; nós os lemos e os assistimos para desfrutarmos deles.
Nós gostaríamos mais de Matrix ou de Senhor dos Anéis se acreditássemos que seus personagens e eventos são reais? Só se diversão for medida em unidades de confusão e terror. Nós gostaríamos mais de Os Vingadores ou de X-Men se achássemos que aqueles personagens e eventos são reais? É claro que não. E a razão para isso é a mesma razão pela qual nós não devemos presumir que crianças gostam mais de fantasias infantis por acreditarem que elas são reais.
Nossa filha adora Harry Potter e Fablehaven, e inúmeras outras histórias de fantasia que ela sabe que são fantasia. Se ela, de alguma forma, fosse levada a acreditar que os personagens e eventos dessas histórias são reais, ela não iria gostar mais delas; ao invés disso, ela ficaria bastante confusa sobre a natureza do universo, e ela teria boas razões para ter medo do mundo. A razão para ela amar essas histórias, é ela achar as histórias maravilhosas e fascinantes, e ela saber que são fantasia, e não realidade.
Crianças pequenas gostam do Papai Noel e da fada dos Dentes, não porque eles acreditam que esses personagens são reais, mas porque os personagens são fascinantes e estão cercados de histórias e tradições divertidas. A diversão não é reduzida para as crianças por saberem que a fantasia é fantasia; pelo contrário, a diversão para eles é elevada por causa desse conhecimento. Livres da mentira de que o Papai Noel existe, as crianças podem ter total diversão com a natureza absurda e contraditória da história, ao invés de ficarem confusas ou assustadas por ela.
Por exemplo, se uma criança sabe que o Papai Noel é de faz de conta, então quando ela vê presentes “do Papai Noel” embaixo da árvore, ela pode desfrutar da diversão de adivinhar de quem realmente veio o presente. “Uau! Um caminhão de Lego. Quem pode ter lhe dado isso?” Crianças adoram jogos de adivinhação. E elas adoram agradecer as pessoas que lhes deram presentes. Por que privar as crianças dessas alegrias?
O mesmo tipo de raciocínio se aplica a todo o conjunto de mentiras que vem com a história de que o Papai Noel existe. Se uma criança acredita que a história do Papai Noel é verdade, então ela está necessariamente confusa com os “fatos” de que renas podem voar, de que um homem consegue distribuir presentes nas casas de todas as crianças do mundo em uma noite, de que um homem pode comer milhões de biscoitos e beber milhões de copos de leite e não explodir, e assim por diante. Se uma criança sabe que o Papai Noel é de faz de conta, ela pode ponderar sem confusão sobre a bobagem maravilhosa de como as renas podem voar; ela pode se divertir inventando teorias de como o Papai Noel consegue ir em todas as casas em uma noite; ela pode rir imaginando o que aconteceria se alguém comesse milhões de biscoitos. E assim por diante.
Quando a criança sabe que fantasia é fantasia, ela tem a liberdade de entrar completamente nela, e de aproveitar a diversão mais profundamente. Quando ela é enganada por adultos, e portanto está equivocada sobre a ideia de que fantasia é realidade, ela está necessariamente confusa sobre as contradições envolvidas, não é capaz de entrar totalmente na diversão, e, quando ela descobrir que mentiram pra ela, terá boas razões para não confiar nessas pessoas (sem mencionar o fato de que aqueles que mentiram pra ela não têm motivos para esperar que ela seja verdadeira com eles).
Outra parte do erro na afirmação de que não há problema em mentir sobre esse tipo de coisa, é que ela ignora as potenciais consequências filosóficas e psicológicas de longo prazo dessas mentiras. Se uma criança está convencida que um estranho chamado Papai Noel está magicamente de olho nela, julgando cada movimento dela, mantendo uma lista de seu comportamento “bom” e “mal”, e se preparando para dar presentes ao bom, e carvão ao mal - do que mais essa criança pode estar convencida ser verdade?
Exatamente.
Todas as mentiras separam a mente da criança da realidade, e isso já é ruim o suficiente. Mas mentiras que também servem para convencer uma criança que coisas impossíveis são possíveis, são substancialmente piores.
O que nós podemos fazer para permitir que nossa criança entenda a realidade, exercite sua mente, e ame sua vida? Uma coisa crucial que podemos fazer é nos abster de mentir para ela.
Fatos sobre Sentimentos
Exceto pela faculdade de raciocínio de uma criança, nada está tão consistentemente presente em sua mente quanto suas emoções. E nada é mais vital para o seu sucesso e sua felicidade do que entender o que são, de onde vêm, e o que fazer com elas.
De desejo à frustração, de raiva à alegria, as emoções de uma criança estão sempre presentes em sua vida, e sempre pressionando sua mente. Suas emoções positivas são agradáveis para ela e para nós. Suas emoções negativas, nem tanto. Mas todas suas emoções são reais, e servem a um propósito vital.
As emoções de uma criança refletem seus pensamentos, crenças, e valores, em relação às suas experiências. Se ela valoriza Legos, e acha que pode ganhar uma caixa de Lego no Natal, ela sente antecipação. Se ela ganha a caixa de Lego no Natal, se acende de alegria. Se seu cachorro come algumas das peças, ela se enche de lágrimas. Se sua irmã pega uma peça e não devolve, ela fica brava. Se ela pensa que deveria agir de acordo com o que está sentindo, ela pode bater em sua irmã. Se ela bater em sua irmã, e sua irmã contar à sua mãe, a criança pode sentir indignação. Se essa indignação for aumentando com o passar do tempo, a vida dela e de outros pode se tornar um tanto desagradáveis.
As emoções de uma criança são uma grande parte do que a torna humana. Elas podem ser maravilhosas - e elas podem ser terríveis. Mas elas são sempre vitais, porque elas mostram fatos importantes: elas registram o que ela pensa, acredita, e valoriza em relação às suas experiências.
Como pais, nós queremos que nossa criança aprenda a natureza e a origem dessas coisas chamadas emoções (ou sentimentos); nós queremos que ela aprenda como pensar claramente e racionalmente sobre elas; e nós queremos que ela aprenda que nem sempre é apropriado agir da maneira que ela está sentindo que deveria agir.
Essa é uma tarefa difícil. Como podemos fazer isso? Essa é a Questão Mestra aqui.
Nossa resposta é que nós podemos conversar regularmente com nossa criança sobre suas emoções (e nossas emoções), como os aspectos de vida vitalmente importantes que elas são. Fazendo isso, nós podemos ajudá-la, ao longo do tempo, a induzir a natureza, a origem, e a função correta desses aspectos complexos da alma.
Ao falar sobre emoções com nossa criança, nós focamos em fazer quatro coisas, sempre que surgem oportunidades:
- Reconhecer a emoção em questão (por exemplo, raiva);
- Rotular ela para nossa criança (“Eu vejo que você está com raiva”);
- Mostrar empatia com sua situação e seu estado de espírito (“Você quer sua peça de Lego de volta”);
- Conectar a emoção que ela está experienciando ao valor e à experiência que deu origem à ela (“Quando alguém toma algo de você assim, isso dá raiva”).
Nós não necessariamente executamos essas quatro ações nessa ordem. Nem executamos todas elas toda vez que conversamos ou refletimos sobre uma emoção; às vezes o nome da emoção ou o valor em questão é óbvio ou claro o suficiente para ser mencionado. Nosso objetivo não é sermos regimentados ou mecanizados sobre este processo; em vez disso, nosso objetivo é ajudar nossa criança, ao longo do tempo, a fazer muitas identificações e conexões com relação às suas emoções, para que ela possa gradualmente induzir a natureza, a origem, e o papel desses aspectos cruciais da vida.
Segue abaixo uma indicação de como nós conversamos com nossa filha com relação a várias emoções em diferentes estágios de sua vida:
- Com três anos de idade, no parque: “Você chegou ao topo do trepa-trepa! Você se esforçou e conseguiu! Como você se sente?”
- Com seis anos, brava consigo mesma por ter esquecido seu livro na escola: “Você queria muito terminar de ler aquele livro. Esquecer das coisas é bastante chato.”
- Com nove anos, frustrada por complicações em um projeto de ciências: “Isso parece frustrante. Seu projeto já estava difícil mesmo sem o trabalho extra. O que você acha que pode fazer para seguir em frente com ele?”
- Com onze anos, quando não conseguia dormir, pela ansiedade de ir esquiar no dia seguinte: “Você deveria aproveitar uma boa noite de sono para amanhã estar alerta e ter energia na pista de esqui. Posso fazer uma sugestão de como parar de pensar sobre isso para que você consiga dormir?”
Além de falar com nossa filha sobre suas próprias emoções, nós conversamos com ela sobre as nossas emoções - e, quando surge a oportunidade, sobre as emoções dos outros, incluindo as daqueles personagens em livros e filmes.
- “Estou tão aliviado de ter terminado aquele ensaio. Levou muito mais tempo e deu muito mais trabalho do que eu imaginei.”
- “Como você acha que seu pai vai se sentir quando ele desembrulhar aquela linda criatura que você fez para ele?”
- “Estou frustrado porque a “solução” do encanador não resolveu o problema, e agora nós temos que marcar outra visita do encanador, o que vai tirar mais do meu tempo.”
- “O que você acha que passou pela cabeça do Neville Longbottom quando ele defendeu seus amigos? Como você acha que ele se sentiu sobre essa decisão?”
Às vezes nós discutimos ou refletimos sobre reações emocionais relativamente triviais, outras vezes sobre emoções mais importantes. Uma gama ampla e diversa permite que nossa filha veja, ao longo do tempo, harmonia entre as diferenças. Isso permite à ela ver que as emoções são consequências automáticas dos valores de uma pessoa em relação às suas experiências. E esse conhecimento permite que ela compreenda suas emoções, desfrute delas, as analise, e mantenha paz de espírito mesmo quando sua vida fica intensa.
Além de ser um valor útil à vida em seu próprio direito, o conhecimento sobre a natureza e a fonte das emoções também implica em um corolário vital. Quanto melhor uma criança compreende as emoções, melhor ela pode entender a diferença entre emoções e razão. Essa distinção pode ser a distinção mais importante que uma criança (ou um adulto) pode fazer a serviço de sua vida. Uma criança que sabe o que são emoções também sabe o que elas não são. Elas não são os seus meios de conhecimento; a razão é. E elas não são triviais ou insignificantes; elas são seus meios psicológicos de conhecer seus valores.
Como podemos ajudar nossa criança a compreender esse aspecto complexo e importante da realidade e da vida? Nós podemos conversar livremente com ela sobre emoções sempre que oportunidades surgirem; nós podemos conectar as emoções aos valores e aos eventos que dão origem à elas; e nós podemos tratar as emoções como os fatos vitais da realidade que elas são.
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