Como Criar Uma Criança Que Ama a Vida - Parte 4



Até o momento nós falamos do uso da Questão Mestra em relação aos ambientes e aos valores. Aqui, nós queremos refletir sobre como ela se aplica a pedidos e regras.


Como pais, nós continuamente pedimos ou esperamos que nossos filhos tomem certas ações ou mantenham certas responsabilidades - limpar seus quartos, alimentar seus animais de estimação, fazer seu dever de casa, entrar em contato conosco quando estão fora. E nossos filhos continuamente pedem ou esperam coisas de nós - permissão para algum amigo dormir em casa, ajuda para comprar um computador, aulas de tênis, e assim por diante. Na relação pai-filho, pedidos e expectativas se manifestam em todas as direções.


O que nós podemos fazer no meio de tudo isso, para permitir e encorajar nossa criança a aprender sobre a realidade, a exercitar sua mente, e a amar sua vida? Parte de nossa resposta é: Nós podemos dar à ela razões para tudo o que pedimos e esperamos dela.


Obviamente, dado nosso respeito pela mente de nossa criança, nós nunca daríamos a ela razões como “Porque eu disse” ou “Porque se você não obedecer eu vou te bater”. Apelos à autoridade e à força não são apelos à mente. Quando nossa criança pergunta “Por que?”, nós damos à ela razões reais.


Mas nós não esperamos ela perguntar “Por que?”. Nós vamos um passo além e preventivamente damos à ela razões para tudo o que pedimos ou esperamos dela.


É claro, as razões para alguns dos pedidos são muito óbvias para justificar menção (por exemplo, “Por favor passe o sal”). E, uma vez que a razão para um pedido em particular se torna perfeitamente clara para nossa criança, nós não continuamos a mencioná-la (por exemplo, “Por favor feche a porta para não desperdiçarmos eletricidade” se torna “Por favor feche a porta” ou simplesmente “Porta”). Mas, na medida em que nós achamos que uma razão para determinado pedido ou regra pode não estar claro para nossa criança, nós damos a razão à ela.


Nós fazemos isso por dois motivos:


  1. Queremos que nossa criança saiba como o mundo funciona, e que nossos pedidos e regras são baseados em objetivos racionais, úteis à vida (por exemplo: economizar dinheiro). Em outras palavras, nós queremos que ela saiba que o mundo faz sentido e que nossos pedidos e regras fazem sentido com ele.
  2. Nós queremos que nossa criança forme a convicção de que todos os pedidos e regras devem ser embasados por razões - não apenas os nossos pedidos e regras, mas também os de seus amigos, de seus professores, de outros adultos, de namorados ou namoradas, de empregadores, políticos, todos.


Uma “razão”, neste contexto, é um tipo de propósito; é uma resposta para a pergunta “Por que eu deveria?” ou “Pra que?” ou “Qual é o objetivo?”. E uma razão válida é uma indicação do propósito legítimo, útil à vida, do pedido ou da regra em questão. Uma razão válida é uma razão que se integra, e que serve aos requisitos concretos da vida e da felicidade.


Se uma criança pergunta, “Por que eu devo escovar meus dentes?”, uma razão válida pode ser: “Porque escovar os dentes regularmente ajuda a manter dentes saudáveis, e diminui as chances de ter que fazer visitas caras e dolorosas ao dentista”. Uma razão inválida seria: “Porque o papai noel entrega presentes apenas para os bons meninos”.


Dar razões inválidas à uma criança é problemático porque isso desconecta sua mente dos fatos relevantes. E não dar razões, ou apenas dar ordens à uma criança é problemático porque isso encoraja ela a focar na autoridade ao invés de focar na realidade.


O propósito de dar razões à uma criança é permitir que ela mantenha sua mente conectada com os fatos relevantes e verdadeiros da realidade, em relação ao pedido ou regra em questão.


“Nós precisamos sair da piscina em dez minutos” pode ser um fato. Mas, se uma criança não sabe por que nós precisamos sair naquele momento, então essa frase em sua mente é simplesmente uma afirmação de autoridade. “Nós precisamos sair da piscina em dez minutos porque agora são cinco horas, e nós temos visitas vindo jantar às seis” inclui uma razão. E, porque inclui uma razão, permite que a criança conecte a afirmação com a realidade - com um objetivo útil à vida que ele pode entender.


Quando nossa criança vê, repetidamente, que nós temos razões para nossos pedidos e regras, ela chega à conclusão de que nós somos pessoas razoáveis - que nós pensamos e agimos em termos de como viver bem, fazer as coisas, e tornar a vida ótima. Ela vê pela experiência que nossa abordagem explicitamente racional conduz à uma boa vivência. E, com o passar do tempo, é provável que ela chegue à conclusão de que essa é a abordagem correta à vida - que todos deveriam pensar e agir em termos de razões. Isso, é claro, é o que queremos.


Uma enorme parte da resposta à Questão Mestra é: Nós podemos dar ao nosso filho razões para tudo que pedimos ou esperamos dele.


Dar razões a nosso filho geralmente leva apenas alguns segundos a mais do que não fazê-lo:


  • “Você não pode ir para a piscina ainda” contra “Você não pode ir para a piscina ainda porque esse horário é reservado para os adultos”.
  • “Por favor, guarde seus blocos” contra “Por favor, guarde seus blocos para você ter uma área livre para começar sua próxima rodada de construção”.
  • “Por favor, separe suas roupas hoje à noite” contra “Por favor, separe suas roupas hoje à noite para que você não se atrase para a escola amanhã”.
  • “Por favor, apague suas luzes às nove” contra “Por favor, apague suas luzes às nove, porque quando você foi dormir depois desse horário você ficou sonolento na escola no outro dia”.


Nós podemos dar razões compreensíveis, para nossos pedidos e regras, para qualquer criança que tenha atingido o nível conceitual. Levando em consideração o contexto de conhecimento dela, e focando nos pontos essenciais que queremos transmitir, nós geralmente podemos apresentar uma razão apropriada à sua idade, que permite que ela entenda nosso pedido; e nós geralmente conseguimos fazer isso rapidamente.


O objetivo não é dar uma razão perfeitamente formulada sempre. Isso é impossível. Em vez disso, o objetivo é dar uma razão que indica o propósito útil à vida de nosso pedido ou regra, ao amarrá-lo ao fato relevante que a criança consiga compreender.


Por exemplo, suponha que uma criança de quatro anos de idade quer brincar com o carrinho do seu irmão, e recorre à força física para pegá-lo. Ao invés de dizer à ela apenas “Você não pode bater no seu irmão” ou algo similar, nós podemos dizer algo como “Você não pode bater no seu irmão - porque bater machuca, e interrompe o diálogo. Mas eu vejo que você quer brincar com o carrinho dele. Você gostaria de conversar sobre como você pode tentar convencer ele a compartilhar o carrinho com você? Ou você prefere ficar brincando com seus próprios brinquedos por enquanto?”


Assim, em alguns segundos, nós indicamos em termos apropriados à sua idade, por que bater é inaceitável, nós reconhecemos os sentimentos de nossa criança e demonstramos empatia, e nós demos à ela alternativas que permitem que ela faça uma escolha e siga em frente.


É claro, uma criança não compreende completamente tais questões de uma só vez. Para uma criança entender completamente ideias como por que bater é errado, e como ir atrás de seus desejos, leva tempo e repetição, e não existe atalho para isso. A questão aqui não é que dar razões à uma criança irá permitir que ela entenda completamente aquele assunto em questão naquele exato momento. A questão é simplesmente que nós podemos dar razões à uma criança - razões verdadeiras - para nossos pedidos e regras, e que se nós fazemos isso em uma linguagem apropriada ao seu estágio de desenvolvimento, ela pode entender nossas razões o suficiente para expandir sua mente, melhorar suas habilidades, e viver melhor tanto agora quanto no futuro.


Uma criança, munida de razões para o que lhe é pedido e o que é esperado dela, geralmente é mais feliz, mais focada na realidade (ao invés de focada na autoridade), mais pacífica, menos manhosa, e menos desobediente do que uma criança que recebe ordens.


É claro, uma criança pode não aceitar uma determinada razão como uma boa razão. Mesmo dando uma razão, ela pode tentar achar furos nela, ou tentar dar um jeito de conseguir o que quer. Mas tudo isso é bom. Significa que ela está exercitando suas habilidades de raciocínio e tentando ter argumentos melhores do que os nossos - uma prática digna de encorajamento.


Por exemplo, para nos aprofundarmos em um exemplo anterior, se uma menina de nove anos pergunta se ela pode trazer uma amiga para dormir em casa essa noite, e se nós tivemos uma semana bastante ocupada e não estamos dispostos a lidar com o barulho e a responsabilidade extras, nós podemos responder “Hoje não, Docinho. Nós tivemos uma semana agitada e precisamos de um pouco de silêncio”. Agora, Docinho - sempre encorajada a pensar por si mesma, a lutar por seus valores, e a falar o que pensa - pode contra-argumentar, “Eu não entendo por que sua semana agitada deveria atrapalhar a minha noite de sexta-feira. Eu quero brincar com minha amiga, e o fim de semana é praticamente o único tempo que tenho para isso…”.


Nesse caso, dependendo do contexto, nós podemos escolher fazer algum tipo de acordo, ou nós podemos usar nossa autoridade de pais. Por exemplo, nós podemos dizer, “Ok, você pode trazer sua amiga, mas só se você e ela prometerem brincar em silêncio, por conta própria, sem fazer pedidos especiais para nós. Nós queremos descansar. Então isso significa: nada de deixar pratos na pia ou brinquedos no chão e coisas do tipo, e nada de pedir para nós levarmos vocês para a piscina, para o cinema ou outro lugar. De acordo?”


Ou nós podemos dizer, “Ter a sua amiga aqui para passar a noite seria uma responsabilidade extra que nós não queremos hoje. Às vezes as coisas não acontecem da maneira que você quer, e essa é uma das vezes. Nós lhe demos nossa razão, e nós entendemos que você discorde dela. Como hoje não vai funcionar pra ela vir aqui, você gostaria de olhar uma nova data no calendário para isso?”


Uma política de dar razões para tudo não é uma política de dar razões indiscutíveis para tudo. Isso não é possível. O objetivo não é fazer nossa criança concordar com nossas razões. O objetivo é possibilitar que ela veja que nós temos razões, que nosso pedidos e regras são baseados em propósitos úteis à vida de uma maneira ou outra - e que esse é o nosso modo de operação. Essa política ajuda a nutrir em sua mente a convicção de que pedidos e regras em geral deveriam ser apoiados por justificativas racionais, que servem à vida. Se existe uma convicção vital, essa é ela.


Na medida em que uma criança forma a convicção de que todas as escolhas e ações devem ser focadas em propósitos úteis à vida de alguma forma, ela adota o princípio fundamental de viver bem. Essa convicção ajuda ela a navegar por sua vida agora, enquanto criança, e mais tarde, como adolescente e como adulta.


Se uma criança forma essa convicção cedo e a fortalece frequentemente, o que é provável que ela faça se seus amigos decidirem fazer algo estúpido - como invadir uma propriedade, ou beber e dirigir? Que tipo de pessoa é provável que ela ache atraente quando se trata de romance e encontros? O que é provável que ela faça se um namorado quiser fazer sexo antes de ela estar pronta? Que tipo de carreira é provável que ela siga? E o que é provável que ela faça se ela se encontrar em um emprego que não gosta, ou em um casamento que não está funcionando?


É provável que uma criança criada com razões para tudo viva uma vida longa e feliz, usando sua mente, fazendo boas escolhas, buscando seus valores, e amando seus dias e anos, do âmago de sua alma.


Nada é mais central ou mais fundamental para o sucesso e a felicidade de uma criança do que sua adoção da razão como seu guia para a vida. E nada é mais central ou mais fundamental para o nosso sucesso em criar uma criança que adota a razão, do que a nossa adoção - e nossa modelagem explícita - da razão como nosso guia na vida.

O que nós podemos fazer para criar uma criança que ama a vida? Uma coisa vital que podemos fazer é: Dar à ela razões para tudo.

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