Como Criar Uma Criança Que Ama a Vida - Parte 3
Valores e Liberdade de Escolha
Nós já ouvimos pais argumentando coisas como: “Vejam, nós fizemos nosso filho tocar violino, mesmo ele não querendo, e as coisas acabaram funcionando. Agora ele é adulto, toca violino, e gosta. Então, claramente, nós fizemos a coisa certa.” Mas esse não é um raciocínio lógico.
Parte do erro aqui é a falha em compreender o propósito da vida e o papel da escolha para viver bem. O propósito da vida não é se tornar um adulto que toca violino e gosta. O propósito da vida é escolher e buscar os valores que são significantes para você, o indivíduo; desenvolver suas proficiências e habilidades nas áreas de sua escolha; e desfrutar do processo de desenvolver sua vida conforme os seus valores. Esse é o propósito da vida, não apenas para adultos, mas também para crianças.
Um adulto que toca violino, porque foi forçado a tocar quando era criança, pode gostar de tocar violino. Mas ele não está desfrutando das atividades que ele estaria desfrutando se, enquanto criança, ele tivesse sido livre para ir atrás de seus próprios interesses, ao invés de ser obrigado a se envolver com as atividades impostas pelos seus pais.
De fato, sua vida hoje não é nada do que seria se ele tivesse sido livre para escolher seus próprios valores, e portanto seu próprio rumo. Ele também nunca saberá que rumo seria esse, ou o que ele está perdendo. A vida que ele teria criado, se tivesse sido livre para criar sua vida à imagem de seus próprios valores, nunca existirá. Nós vemos isso como uma tragédia.
Outro aspecto do erro na afirmação, “Nós forçamos nosso filho a fazer x e agora ele é feliz, então nós devemos ter feito a coisa certa”, é que a afirmação é um caso evidente da falácia de post hoc ergo propter hoc (depois disso, logo causado por isso). O fato de um adulto parecer feliz - ou mesmo de ser feliz - não significa que a maneira em que foi criado é a causa de sua felicidade. Milhares de crianças foram criadas de maneira terrível - negligenciadas, menosprezadas, amedrontadas, fisicamente castigadas - e conseguiram lidar com a vida e atingir a felicidade quando adultas. Suas habilidades de lidar com isso e de atingir a felicidade mostram sua resiliência e força de espírito, não a virtude dos métodos de seus pais. Não há lógica em apontar para um adulto feliz e dizer, “Qualquer que tenha sido o método que seus pais usaram para criá-lo, deve ter sido bom, porque ele é feliz”.
Existem boas e más maneiras de criar uma criança, e o padrão de avaliação delas não é a opinião dos pais, ou o adulto que a criança se tornou, mas sim os requisitos concretos da vida humana e da felicidade - ditados pela natureza humana.
Seres humanos têm livre arbítrio: a escolha de pensar ou não pensar, de exercer esforço mental ou não, de buscar um determinado valor ou não. Isso é o que nos faz humanos. É precisamente usando nossas mentes racionais e buscando nossos valores escolhidos que nós vivemos apropriadamente. Crianças não apenas precisam praticar os atos de pensar e de escolher, para que sejam capazes de pensar e de fazer boas escolhas, quando adultas; elas também precisam da liberdade de pensar e de escolher hoje, para que possam amar suas vidas enquanto crianças.
Isso não quer dizer que nós devemos permitir que nossas crianças façam tudo o que quiserem. Nenhum pai racional tomaria tal posição. Em vez disso, significa que, uma vez que o uso da capacidade de escolha das nossas crianças é o que permite que elas vivam apropriadamente, nós devemos possibilitar que elas escolham seus próprios valores, dentro de uma gama de alternativas sensatas, úteis à vida, e de acordo com seu estágio de desenvolvimento. Esse é o campo dos valores opcionais - valores que uma pessoa pode escolher, e que pode se beneficiar por seguir (por exemplo: tocar violino, velejar, costurar), mas que não são requisitos fundamentais da vida humana (por exemplo: razão, honestidade, liberdade política).
Naturalmente, a gama de valores opcionais inclui alguns de nossos próprios valores e interesses - alguns dos quais nós podemos considerar potenciais valores maravilhosos para nossas crianças. E expor nossas crianças aos nossos próprios valores e interesses não é apenas correto, mas também potencialmente bom - contanto que nossos valores não sejam forçados nelas.
A razão da Questão Mestra conter uma cláusula sobre escolha, é que a QM é simplesmente o propósito da parentalidade convertido em uma pergunta para guiar nosso pensamento. E o propósito da parentalidade não é o de moldar nossas crianças à imagem de nossos valores opcionais. Em vez disso, o propósito da parentalidade é o de permitir e encorajar nossas crianças a desenvolverem suas próprias vidas singulares, ao seguir os valores que elas mesmas escolheram.
Quando nossa filha nasceu, nossos passatempos incluíam dança de salão, dança country, escalada, e esqui na neve. Naturalmente, pensamos que seria maravilhoso se nossa filha viesse a amar algumas dessas atividades também. Que divertido seria dançar juntos, escalar juntos, esquiar juntos! Nós também imaginamos a possibilidade de ela aprender a tocar algum instrumento musical. Nossa preferência era por violino ou piano. Nós imaginamos todo tipo de valores que poderiam fazer parte da vida da nossa filha. Ao mesmo tempo, nós sabíamos que a vida dela pertence à ela, e não a nós.
Por termos adotado a QM, nós nunca nos perguntamos: Quais esportes ou passatempos nós faremos nossa filha praticar? Ou: O que podemos fazer para garantir que ela adote os valores opcionais que nós adotamos? Em vez disso, nós perguntamos: O que podemos fazer para permitir que ela escolha seus próprios valores, e portanto ame sua vida?
Nossa resposta foi direta: Expor ela a uma ampla gama de valores e atividades, deixar ela seguir naqueles que achar interessantes, e encorajar seus esforços para seguir sua vida de acordo com os seus valores.
Nós levamos nossa filha para escalar algumas vezes, e ela gostou de escalar, mas não amou. Nós mostramos à ela vídeos de crianças praticando dança de salão, e ela ficou impressionada com a dança mas não se interessou em experimentar. Nós a levamos para esquiar, e ela adorou - agora é um de seus esportes favoritos. E nós dissemos à ela que se algum dia ela quiser tentar tocar um instrumento musical, nós iremos de bom grado pagar por algumas aulas introdutórias; ela não nos pediu isso ainda.
Nós expusemos ela a inúmeros outros esportes e atividades também, e ela experimentou muitos deles, incluindo patinar no gelo, andar a cavalo, Krav Maga, teatro, natação, arco e flecha, e surf. Embora ela tenha gostado de algumas dessas atividades, e até tenha ficado um tempo praticando algumas delas, ela não desenvolveu um sentimento profundo ou duradouro por nenhuma delas.
No entanto, no meio das atividades acima mencionadas, ela se voltou para alguns valores sobre os quais se apaixonou, e alguns deles se provaram profundamente importantes e cruciais em sua vida.
Um desses valores - ou melhor, corrente de valores conectados - que tem definido substancialmente sua infância, germinou em sua mente quando ela tinha sete anos de idade, durante uma visita à Barnes & Noble. Na época, ela era uma ávida leitora, adorava histórias sobre personagens interessantes e peculiares, e estava sempre à procura de livros nessa linha. Mas nesse dia em particular nós não tínhamos parado lá para comprar livros. Nós estávamos na B&N só para comprar uma revista e ir embora. Mesmo assim, durante os poucos minutos em que olhávamos a estante de revistas, nossa filha viu a lombada de um livro chamado The Knitted Odd-bod Bunch (algo como O Grupo de Formato Estranho de Tricô). Ela o puxou da estante e começou a folheá-lo. Era cheio de criaturas - ou, como o subtítulo dizia: “35 criaturas de tricô únicas e peculiares”. Ele continha lindas imagens de criaturas estranhas de todas as formas, cores e tamanhos - e também instruções de como tricotar suas próprias criaturas. “Papai, veja! Um livro sobre como fazer criaturas… Podemos comprar ele?”.
Foram os melhores vinte dólares que nós já gastamos.
Embora as instruções de tricô fossem muito avançadas para uma criança de sete anos, os “Formatos Estranhos” e as descrições dos personagens, escritas de forma muito bonita pela autora, acenderam a imaginação da nossa filha. Ela passou bastante tempo examinando as criaturas, lendo repetidamente as descrições que as acompanhavam, e querendo desesperadamente fazer suas próprias criaturas.
Nós fomos no site da Amazon.com procurar por um livro similar com instruções adequadas para sua idade. Rapidamente nós achamos um livro da mesma série, chamado Make Your Own Misfits: 35 Unique and Quirky Sewn Creatures (algo como Faça Seus Próprios Desajustados: 35 Criaturas Costuradas Únicas e Peculiares) - era o que procurávamos. No dia seguinte o livro estava em nossas mãos (Obrigado, Jeff Bezos!), e nossa filha começou a criar criaturas imediatamente. Primeiro um peixe dourado (“Goldie”), depois três minhocas (“Bernie”, “George”, e “Denzil”), depois uma lesma (“Dave”) - e ela deu a cada criatura sua própria personalidade, gostos e aversões.
As criaturas mais complexas do livro exigiam maior habilidade com costura, então nossa filha logo pediu para ter aulas de costura. Nós a matriculamos em um curso de costura local, onde as crianças aprendem como fazer roupas para bonecas, e ela começou - fazendo criaturas e agora também roupas desde o início, usando sua mente, sua imaginação, suas mãos, e uma máquina de costura.
Várias semanas depois de começar as aulas de costura, ela teve a oportunidade de usar suas novas habilidades para fazer um presente de aniversário para seu pai. A criatura, que ela chamou de Om Nom (em homenagem ao personagem de Cut the Rope), tinha a forma de uma meia-lua, era verde, de veludo macio; ele tinha uma antena sinuosa em cima da cabeça e dois pequenos braços logo abaixo de sua grande boca sorridente, cheia de dentes grandes, brancos e afiados, para mastigar sua comida favorita: doces. Como a garotada diz: O. Melhor. Presente.
E nossa filha estava apenas no início. Ela começou a fazer “Om Noms” (agora também um termo genérico para suas criaturas) de vários tamanhos e cores, e os dava de presente para amigos e professores. Logo ela estava recebendo pedidos e vendendo Om Noms: três dólares os pequenos, cinco dólares os grandes, e os clientes podiam escolher seu tecido favorito de uma amostra de cores. Nossa filha, então com nove anos, tinha começado um negócio.
A essa altura, a descrição em evolução do Om Nom original incluía o fato de que ele tinha se emancipado de qualquer pessoa, então ele era livre para ir onde quer que nossa filha fosse, e ele foi. Sempre que as pessoas perguntavam sobre ele, nossa filha orgulhosamente dizia que ela tinha feito ele, perguntava se gostariam de encomendar um, e tirava as amostras. Ela estava fazendo marketing agressivo.
Depois de fazer e vender Om Noms por cerca de um ano, ela decidiu parar de receber encomendas para que pudesse usar seu tempo e esforço com outras coisas. Uma dessas coisas, no entanto, era uma extensão adicional dessa linda corrente.
A essa altura nossa filha havia se apaixonado pela arte de escrever - uma paixão substancialmente inspirada pelas descrições de personalidade das criaturas nos livros mencionados acima, e pelas muita personalidades e peculiaridades que ela havia dado às criaturas que ela mesmo fez. Ela agora iria se focar principalmente em escrever - o que permaneceu como sua paixão número um desde seus anos pré-adolescentes até hoje. Ela escreve regularmente em um bloco de notas e no seu laptop. Ela é autora de dezenas de histórias e está escrevendo um livro. Ela pensa constantemente sobre enredos, personagens, histórias, e temas. E quando alguém pergunta à ela o que ela quer ser quando crescer, ela diz, “Eu sou uma escritora”.
Será que essa corrente em particular irá continuar? O que ela irá escolher fazer a seguir? Nós não sabemos. Mas isso não nos interessa. O que nos interessa não é o que ela faz, mas que ela pensa por si mesma e escolhe seu próprio rumo. Nosso interesse é expresso na Questão Mestra, que aqui se resume a: O que nós podemos fazer para permitir que nossa filha desenvolva sua própria incrível vida? E nossa resposta se resume a: Nós podemos deixar ela escolher seus próprios valores, nós podemos encorajar seus esforços e interesses, e nós podemos nos abster de empurrar nossos valores sobre ela.
Nossa filha atualmente tem várias outras grandes paixões também, incluindo ginástica aérea, um esporte que ela descobriu por conta própria; dança em grupo, que ela e suas amigas começaram a praticar recentemente; a série de televisão britânica Sherlock, que ela adora; e outras coisas que ela pediu para não mencionarmos aqui. A única coisa que os seus valores têm em comum é que ela os escolheu. Eles são dela.
Adote a QM e deixe sua criança projetar sua própria vida. Se você fizer isso, ela o fará.
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