Como Criar Uma Criança Que Ama a Vida - Parte 6

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Causalidade como Disciplina


Se disciplina é, como alguns dicionários definem, “a prática de treinar pessoas para obedecer regras ou um código de conduta, usando punição para corrigir desobediência”, então nós nunca disciplinamos nossa filha, e nunca iremos disciplinar. Nós não punimos nossa filha; nós dialogamos com ela. Nós não recorremos à força; nós recorremos à sua mente. Nós não queremos que ela seja obediente; nós queremos que ela seja pensativa, crítica - até desafiante, quando tal atitude se justificar.


Se, no entanto, disciplina é a prática de ensinar a alguém como escolher valores úteis à vida e como buscá-los com razão e vigor, então tudo que nós fazemos, e que sempre fizemos, como pais, pode ser chamado de disciplina. Na medida em que nós nos interessamos em disciplinar nossa filha, isto é o que queremos dizer com o termo.


Crianças querem coisas - e isso é bom. Como pais, nós queremos ajudá-los a aprender como avaliar as coisas que querem; como determinar se as coisas que querem, caso conseguissem, de fato as deixariam felizes; e, se for este o caso, como fazer para conseguirem o que querem. Estamos, de fato, tentando ajudar nossas crianças a fazer a transição, de hedonistas natos (ignorantemente buscando o prazer), para pessoas independentes, egoístas racionais (pessoas pensantes, que buscam valor).


O que nós podemos fazer com relação a esse fim? Essa é a Questão Mestra quando se trata de disciplina.


Duas coisas vitais que podemos fazer são: familiarizar nossa criança com a lei da causalidade, como ela se aplica aos seus valores, e encorajar ela a adotar o raciocínio causal como seu modus operandi na vida.


A lei da causalidade aplicada aos valores é: se você quer atingir um objetivo (um fim), você deve decretar sua causa (os meios). Ou, mais claramente: se você quer algo, tem que trabalhar por isso.


A ideia não poderia ser mais simples. E, para adultos (racionais), não poderia ser mais óbvia. Mas crianças não nascem sabendo deste princípio. Elas precisam aprendê-lo. Quanto mais cedo elas o aprenderem, e quanto mais firmemente elas o adotarem, melhores suas vidas serão.


Como podemos ajudar nossas crianças a compreender e a dominar este princípio? Uma boa parte da resposta é: Nós podemos regularmente iluminar, ou indicar, as conexões causais entre seus esforços e suas conquistas.


Aqui estão algumas indicações de como nós fizemos isso com nossa filha pelo período de sua infância:


  • Para uma menina de quatro anos que limpou seu quarto rapidamente: “Você limpou seu quarto em apenas cinco minutos. Como você conseguiu fazer isso?”
  • Para uma menina de sete anos que trabalhou duro construindo um forte com vários aposentos: “Você se esforçou bastante fazendo isso. Mal posso esperar para fazer o tour. Quero ver todas as instalações.”
  • Para uma menina de nove anos que estudou e praticou bastante para memorizar suas falas e aprimorar sua apresentação em uma peça: “Foi um prazer assistir você se apresentar. Todo o estudo e treino compensou.”
  • Para uma menina de onze anos que pela primeira vez esquiou em uma pista mais avançada: “Isso é o que você consegue alcançar ao definir metas de crescimento razoáveis e ao forçar seus limites. Vamos esquiar de novo?”


Quando chamamos a atenção à causa da conquista de nossa criança - isto é, ao raciocínio e esforço que ela aplicou para alcançar o objetivo - nós iluminamos a causa em sua mente e a ajudamos a ver a conexão mais claramente. Quanto mais claramente nossa criança enxergar essa conexão, mais provável será que ela forme ou aprofunde a convicção de que raciocínio e esforço são bons, e que se ela tentar fazer algo é provável que ela tenha sucesso.


Entender o outro lado da moeda da causalidade é igualmente vital. Quanto mais claramente nossa criança entender a conexão entre falta de raciocínio, falta de esforço, e resultados negativos, melhor. Nós queremos que nossa criança veja as conexões causais nesse sentido também; mas aqui nós queremos tomar um cuidado extra para não expormos à ela a nossa avaliação do seu comportamento. Nós queremos simplesmente que ela experiencie as consequências naturais por não ponderar ou por não tentar.


Por exemplo, quando nossa filha de quatro anos se recusou a trazer seu casaco para o parque, e mais tarde percebeu que estava com frio, ela experienciou a consequência de não pensar mais à frente. Nós nos solidarizamos com ela, mas deixamos clara a consequência: “Vejo que você está com frio. Isso não é legal. Nós podemos ficar ou podemos ir embora, mas se formos embora nós não vamos voltar aqui hoje. O que você gostaria de fazer?”. Na próxima vez que fomos ao parque, perguntamos, “Você gostaria de levar seu casaco hoje?”.


De forma similar, quando nossa filha de seis anos deixou seu skate (que nós demos de presente) fora de casa uma noite, e ele desapareceu, ela experienciou a consequência de sua irresponsabilidade, ou de seu esquecimento. Novamente, nós nos solidarizamos, mas deixamos a consequência em evidência: “Isso é triste. Você gostava do seu skate. Sinto muito que tenha perdido ele. Se você quiser comprar outro, você pode… mas você precisará usar seu próprio dinheiro”.


Crianças precisam entender que uma vida de felicidade é uma consequência do uso de suas mentes, de pensar a longo prazo, e de se responsabilizar por seus valores, necessidades, e deveres. Um aspecto essencial dessa compreensão é um claro entendimento da lei da causalidade, que aqui significa: Se você quer algo - ou quer evitar algo - você deve agir de acordo.


Segue-se dessa mesma lei, que se nós queremos que nossas crianças tenham um claro entendimento dela, nós também devemos agir de acordo: Nós devemos nos abster de distorcer a compreensão da natureza causal do mundo aos nossos filhos, e devemos nos abster de distrair suas mentes de focarem nas conexões causais.

Como pais, nós podemos errar a respeito disso de muitas maneiras. Nós vamos falar sobre duas dessas maneiras, que refletem a natureza geral de todas elas.

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